Após os ataques terroristas na sexta-feira 13/11 em Paris, matando mais de 120 pessoas e ferindo outras centenas, o presidente francês François Hollande, com apoio declarado de outras grandes potências, declarou guerra ao Estado Islâmico, autoproclamado califado situado em áreas conquistadas no Oriente Médio.
Identificados os primeiros suspeitos, percebe-se que alguns já estavam sendo investigados como potenciais terroristas, mas, como prendê-los, interrogá-los e obter informações mais precisas sobre suas atividades sem riscos de violações aos direitos humanos?
Vou compartilhar com vocês alguns momentos em que fui abordado em países vitimados com atos terroristas. O primeiro ocorreu no ano de 1995, quando tentava ingressar no World Trade Center em Nova York, ainda jovem com 35 anos de idade, barba grande, feições árabes e portando uma bolsa na qual carregava uma câmera filmadora. Mesmo com dificuldades para dialogar em inglês, percebi claramente que estava sendo tratado como suspeito em razão do perfil. Depois de muito tempo e quase total desmontagem da filmadora, fui liberado para ingressar nas torres gêmeas, derrubadas nos ataques de 09/11/2001. Logo depois entendi a preocupação dos profissionais de segurança; em 1993, dois anos antes, ocorrera o primeiro ataque terrorista no WTC. Então, cabível o constrangimento para se obter a segurança.
No aeroporto de Houston/Texas, submetido a varredura eletrônica e cães buscando resíduos de explosivos e drogas, mais recentemente, scanner do corpo todo. Na Espanha, no aeroporto de Barajas em Madri, a abordagem ocorrera de forma deselegante, policiais beirando a truculência abriram bolsas e descartaram qualquer depósito de substância assemelhada a explosivo, mesmo as inofensivas e santificadas águas e areias do Rio Jordão, que já teriam sido revistadas no aeroporto de Ben Gurion em Tel Aviv/Israel. Não tem conversa, o que é suspeito não embarca, não querem perder tempo com análises mais profundas.
Negligências com normas de segurança são muito bem aproveitadas pelos terroristas, como ocorrera no Egito, possibilitando o embarque de uma bomba que explodiu a bordo de avião russo sobre o Sinai em 31/10.
Essa paranoia com a segurança é transmitida aos policiais estrangeiros que vão realizar treinamento nesses países, inicialmente chocados com a agressividade nas abordagens e cuidados maximizados com expressões corporais de suspeitos – que não abrem portas de veículos, não movimentam zíper de casacos, não afrouxam cintos, é mão na cabeça e obediência aos comandos das forças de segurança. A desobediência é reprimida com rigor, depois se apura possível constrangimento, é o cuidado com a segurança de muitos ameaçada por poucos.
A narrativa faz lembrar do brasileiro Jean Charles, morto com sete tiros na cabeça em julho de 2005 ao sair da estação de Stockwell em Londres, quando foi confundido pela Scotland Yard com um suspeito terrorista, carregando mochila nas costas e vestindo casaco.
São as consequências dos atos terroristas, espalhar o terror pelo mundo, mutilando a inocência e a liberdade de todos.
Flávio Saraiva, Delegado de Polícia Civil aposentado, pós graduado em Administração Policial e Direito Público, Engenheiro Agrônomo pós graduado em Engenharia de Segurança do Trabalho, Analista de Inteligência, Instrutor da Academia de Policia Civil, Consultor de Segurança, com cursos de especialização em operações especiais e proteção de executivos no Brasil, Estados Unidos, Espanha e Israel. Foi Diretor de Polícia Metropolitano, Corregedor de Polícia, Coordenador do TIGRE, Diretor de Recursos Especiais, Titular de Delegacias Regionais e Especializadas, Presidente da Associação dos Delegados, Diretor da Academia de Polícia Civil. É Advogado e articulista do Jornal Gazeta de Alagoas.
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